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Intrusão literária

por Juliana Portella - 16/10/2010
Baixada Fluminense | RJ

O primeiro dia de ações e discussões sobre livros para a classe C terminou com uma roda de conversa com Bráulio Tavares – poeta, escritor e compositor  – e Marcus Vinicius Faustini – escritor, cineasta e ex-secretário de Cultura e Turismo de Nova Iguaçu  – no Espaço Cultural Sylvio Monteiro.  O atual secretário de Cultura e Turismo da Cidade de Nova Iguaçu, Écio Salles, deu início  ao poupe-ficha iguaçuano explicando o movimento Livro Livre e suas expectativas para democratizar a leitura e a criação literária na classe C. O acesso à palavra e à produção literária foram os principais temas do debate. 

Com o olhar de quem foi criado na periferia do Rio de Janeiro, mais particularmente no conjunto residencial Cezarão, em Santa Cruz, Marcus Vinicius Faustini disse que a  literatura aconteceu em sua vida por acaso. Atualmente na Secretaria de Ação Social e Direitos Humanos  do Governo do Estado, esse autodenominado “intruso social” está desenvolvendo trabalhos cujo objetivo é incrementar a produção literária nos morros ocupados pelas UPPs. Para ele, os governos federal, estadual e municipal têm que implementar políticas públicas que estimulem a a produção literária, ” Financiar a literatura é financiar a vida”, acredita Faustini, para quem políticas públicas  em prol da difusão da palavra podem ser uma grande contribuição para formação de novos leitores.

Faustini contou também como concebeu o bem-sucedido “Guia afetivo da periferia”, que já está na segunda edição. “Estava cansado do modo como o pobre é representado na literatura brasileira, sempre seguindo o modelo da superação”, conta ele, que se inspirou no “Guia prático, histórico e sentimental da cidade do Recife”, de Gilberto Freyre, e no “Um guia de Lisboa”, de Fernando Pessoa.

Bráulio Tavares defendeu a ideia de que ao escrever o escritor cria uma identidade. “Quando você escreve o que nasceu para escrever, liberta uma criatura que existe dentro de si” diz ele, para quem há muitos pontos em comum entre a literatura e a psicanálise. Assim como o analista escava o inconsciente, a literatura puxa o que não se vê em cada um de nós. Imaginemos um iceberg, o que se pode ver superficialmente é só a ponta. É preciso enxergar o que está submerso. A revelação de quem somos vem junto com a literatura.

Ao final da  discussão da nova classe C dentro do mundo literário, percebe-se que ler é decisivo para a vontade de escrever, e a arte da escritura que antes era restrita à classe média da  Zona Sul está se democratizando. Um exemplo disso é a  internet onde temos vários escritores de 140 caracteres. Uma twitada faz parte de um novo repertório literário onde se escreve em um momento de emoção.



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