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O inimigo número um do Estado foi preso

por Fiell - 16/11/2011
morro Santa Marta | RJ

No último dia 13/11/2011, centenas de policiais invadiram a favela da Rocinha. Não houve  resistência por parte dos varejistas de drogas, liderados por Antônio Bonfim Lopes, conhecido como 'Nem', de 35 anos. Apontado pela grande mídia como o Inimigo número um do Estado do Rio de Janeiro.

Desde domingo as emissoras de TV do Rio de Janeiro estão tratando de forma sensacionalista e “espetacular” essa entrada da Polícia na Rocinha, como se fosse um novo acontecimento, mas não há nenhuma novidade nisso. Em novembro do ano passado o Brasil assistiu a uma operação semelhante no Complexo do Alemão, o local era outro, mas a cobertura midiática tratou aquela operação da mesma forma.Faço assim algumas reflexões:

1. Nunca vi nenhum varejista de droga, de favela ou não, como: Terrorista/Revolucionário, e sim por consumista e ganancioso.

2. Nenhum destes varejistas pensavam em tomar o poder de governo do Estado.

3. A maioria deles não terminou o Ensino Fundamental.

 

O Jornal do Brasil, em 02 de Junho de 1988, trazia a manchete: POLÍCIA INVADE E OCUPA A ROCINHA. Nesta ocupação, a PM assassinou o varejista de droga BUZUNGA.

[Acesse o jornal através deste link] Esse poder de persuasão que a mídia e toda comunicação corporativista tem acaba às vezes por distorcer, iludir e manipular mentes e corações desde a classe alta aos  pobres. Não estamos em um jogo ou em uma “guerra” onde um lado irá vencer. Não existe essa oposição Polícia versus bandido, não podemos olhar as ocupações em favelas sobre esse viés.

As favelas sempre foram espaços esquecidos pelo estado do Rio de Janeiro, visto como reduto de vagabundos e marginais, onde sempre prevaleceu a lógica de que esses espaços considerados “sujos”  tinha que ser higienizado. Nunca vi nenhum agente do estado entrar em qualquer favela para ouvir o povo e desenvolver ações para a melhora da qualidade de vida. Isso que estamos vivendo hoje é muito simples de explicar: “COPA DO MUNDO 
E OLIMPÍADAS“, com investimentos de ricas empreiteiras, envolvendo os mais diversos setores empresariais, que nos términos dos eventos irão ter um aumento em suas rendas.

O varejista de droga “Nem” tem que ser julgado e quitar seu débito com a sociedade. Da mesma forma que o banqueiro corrupto Salvatore Cacciola. Mas Nem, diferente do banqueiro, já foi sentenciado pela mídia. A mesma mídia não emitiu uma nota contra Cacciola, que meteu a mão no dinheiro público. Em agosto de 2011 o banqueiro foi beneficiado por liberdade condicional e passou a responder aos processos em liberdade. Vive hoje em um luxuoso condomínio no estado de São Paulo.

Percebo que muitos telespectadores são seduzidos por essa ordem midiática e acabam aplaudindo esse falso espetáculo, brindando um conto de fardas. Na reportagem, o comentaria da TV Globo Rodrigo Pimentel, autor do livro Elite da Tropa, relatou: "O Povo da Rocinha agora não viverá mais com armas".

Esse comentário não passa de uma balela, continuará havendo fuzis, pistolas e diversos tipos de munição, só que estarão nas mãos dos policias. As armas são presentes em todo lugar que andamos da cidade, do centro ao subúrbio há policiais armados, a cidade está cada vez mais militarizada.

O que realmente me preocupa é o impacto dessa ocupação no cotidiano dos trabalhadores; os imóveis vão ficar mais valorizados, os aluguéis vão aumentar, haverá uma ebulição  econômica. Suas vidas ficarão mais caras em troca da “paz armada”. Tenho certeza que vão acontecer remoções na Rocinha. Muitos problemas com o estado policial os jovens da periferia vão vivenciar. Haverá também uma mudança da cultura local, proibição de eventos comunitários, bailes funks, e até o volume do som de suas casas será administrado por policiais se seguir as ordens.

 

Eu ficaria sinceramente contente se realmente eu acreditasse que o Estado ocupando favelas com a Polícia resolveria o tema da violência. Infelizmente, isso é ilusão, porque o Estado não tem como acabar com a violência sem efetivar políticas públicas como distribuir terras, casas, garantir empregos e aumento do salário; essas são as melhorias que o povo necessita. Mas acontece o contrário com a ocupação, quem tem excesso de lucros não é o povo. São as empresas que juntos financiaram armas, carros e muito dinheiro para idealizar as UPPs, em troca de mais lucro. O capital adentra nas comunidades com a especulação imobiliária e expulsa seus antigos moradores.

 

O Inimigo número um do estado, o varejista de droga “Nem”, foi apreendido dentro de um porta malas de um carro. Onde todas as entradas e saídas da favela estavam vigiadas pelas diversas polícias do Rio de Janeiro, e até de fora do Rio. Nem, ao ser preso em uma operação muito duvidosa, revela que parte dos seus lucros iriam para os agentes do Estado, ao contrário da relação subsidiada pela mídia do mito Nem, que controlava e mandava sozinho em uma das maiores favelas da América Latina. Mostra-se mais uma vez a real relação da promiscuidade entre varejistas e policiais (Estado), eu não sou ingênuo de acreditar que Nem foi uma presa tão fácil. Algo estranho paira no ar.


Por: Repper Fiell  



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Comentários

imagem de botocudo

muito lúcido, cara. de boa.

é fato que a cobertura e tratamento dados ao assunto estão mostrando claramente que o jornalismo dos grandes meios de comunicação está falido, cooptado e raso.

valeu.

imagem de Joyce Trindade

Muito boa análise... mas nunca veríamos esse tipo de abordagem na grande mídia, infelizmente. No meu blog http://joyce-pensologofalo.blogspot.com/ fiz um texto sobre uma declaração de um PM que falava do Nem e dos traficantes em geral, como se eles fossem obra do acaso...e pior é quem tem gente que acha que eles são mesmos...

imagem de Paloma Silbar

Alguns veículos de comunicação estão fazendo uma cobertura ridícula, chegando a dizer que é uma "luta do bem contra o mal". Isso não é novelinha, não existe isso de mocinhos e vilões. Vamos tentar fazer um jornalismo decente, por favor!

imagem de djahjah

analise perfeita!!

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