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As rappers além-mar

por Edd Wheeler - 11/06/2011
Nilópolis | RJ

Quando conseguimos mostrar que a comunicação através da música não tem fronteira e ultrapassa até o limite do som é que nos damos conta de como a integração entre diversas sociedades pode ter um efeito eficaz e atingir a todos os jovens com uma única linguagem universal. E como não queremos perder tempo, eu atravesso o mar e vou visitar meus patrícios. Semelhantes na fala e na escrita, no diálogo dinâmico e com os mesmos problemas que há no Brasil, as rappers ALÉM-MAR ou de PORTUGAL também estão galgando um espaço no cenário da cultura hip hop e explicam suas dificuldades, expectativas e ações.

Essa é uma oportunidade de verificarmos nossas diferenças e nossas igualdades enquanto sermos reconhecidas na cultura hip hop. A rapper Sandra Madalena Alves Silva, MADA MC, é de Cabo Verde, e em abril de 2009 participou do “Projecto Hip Hop Batom", promovido pela Associação Diálogo e Acção, Associação Sem Fins Lucrativos e financiados pela Fundação Calouste Gulbenkian. Tinha como objetivo dar espaço e voz às mulheres no âmbito da promoção da igualdade de gênero e o exercício de cidadania das mulheres.

A área de intervenção do projeto incide nas áreas musical, dança, djing e graffiti. Em um bate-bola virtual descontraído com MADA MC, minha curiosidade foi respondida e, com certeza, uma aliança começou a ser formada:

Edd Wheeler - Como você se envolveu com o hip hop?

Mada Mc - O meu primeiro contacto com Hip Hop foi com certeza com o meu pai, que desde muito cedo deu-me a possibilidade de ter um leque muito variado de música (foi marinheiro durante muitos anos e colecionava vinis de todos os cantos do mundo), incluindo Hip Hop Americano. Tenho como referência o tema “Sugar Hill Gang” dos Rapper´s Delight. Mais tarde, de uma maneira mais autônoma, comecei a ouvir Rap em alguns bairros dos Subúrbios de Cascais com amigos. Há relativamente pouco tempo um amigo chamado Uncle C perante o meu grande interesse pelo Hip Hop desafiou-me a escrever uma música e como na altura havia algumas pessoas no meu bairro que tinham começado há pouco tempo a cantar, aceitei o desafio como uma experiência, ele ajudou-me a escrever a primeira letra com opiniões, depois conseguiu arranjar maneira de ir gravar a música e sugeriu-me a participação no Projecto Hip Hop de Batom, Projeto no qual iniciei a minha carreira como Mc. Participei em aulas, workshops e participações em eventos em nível de intervenção social e animação social dentro do projeto. Atualmente encontro-me também a participar num projeto de intervenção social do meu bairro e mais alguns bairros da zona Cascais, chamado “Orienta-te”, é um projeto onde é promovida a inclusão educativa, formativa e/ou socioprofissional de jovens provenientes de contextos socioeconómicos mais vulneráveis. Contribuir para o aumento das qualificações e da empregabilidade dos jovens imigrantes e de minorias étnicas. Sendo a metodologia de coaching um dos pilares do projeto. Onde tive acesso a estar já na presença de um importante cantor de Rap em Portugal com vista a realizar um mentorismo, tem sido muito importante esta face de aprendizagem.

Edd Wheeler - Como está a aceitação da cultura hip hop em Portugal?Há discriminação quanto à cultura pela sociedade?O mercado fonográfico é aberto a todos os tipos de vertentes?

Mada Mc - Penso que atualmente o Hip Hop está aceite em Portugal de uma maneira geral, mas a aceitação da Cultura Hip Hop com a verdadeira essência das suas origens, como Cultura de intervenção social, penso que ainda está muito longe de ter a visibilidade verdadeiramente merecida. Em Portugal, a meu ver, ainda se associa e se generaliza muito a Cultura Hip Hop ao vandalismo, incentivo à violência, uso de drogas, roubos, a generalização da mulher vista como infiel e objeto sexual do homem, entre outros aspectos negativos associados muitas das vezes ao Rap e ao Graffiti o que se traduz numa certa hostilidade e por vezes discriminação em relação à cultura Hip hop. Para mim, o mercado ainda está muito limitado, por exemplo, em relação ao Rap, no decorrer dos anos em que tenho acompanhado como ouvinte, sinto que existem muitos talentos desperdiçados, não reconhecidos e por conseqüência artistas que acabam por desistir das suas carreiras por não haver reconhecimento nem visibilidade nos meios de comunicação e eventos, por exemplo.

Edd Wheeler - O hip hop feminino tem expressão?Quais são as principais dificuldades?Há grafiteiras, rappers, DJs, B. Girls reconhecidas e com trabalho fonográfico?

Mada MC - Atualmente acho que o Hip Hop feminino esta em crescimento em Portugal, embora na sua maioria sejam utilizadas mais nos refrões, começam a aparecer cada vez mais mulheres a rappar, mas infelizmente, que seja do meu conhecimento, são poucas, comparando com o número crescente de rappers masculinos que estão a aparecer, acredito que as principais dificuldades sejam a aceitação de uma mulher como rapper (a rappar, não a cantar só nos refrões), visto que as mulheres são vistas como pessoas mais sensíveis que os homens e têm tendência a cantar temas mais sensíveis e delicados, isso acaba por se refletir numa menor visibilidade. Pois a maioria dos ouvintes são indivíduos do sexo masculino que por muitas vezes não mostram interesse em conhecer o trabalho de uma rapper mulher, pelo simples fato de ser mulher ou ter um estilo mais delicado de cantar. Eu mesma tenho sido confrontada muitas vezes por outros rappers masculinos que apelam que eu adapte um estilo mais agressivo. Até já chegaram a dizer “Tu cantas bem, o problema é que és muito lamentadora…”. Penso que todas as dificuldades a que me referenciei como rapper se aplicam nas outras vertentes do grafitti, Djs, B,Girls, enquanto mulheres. Claro que existem algumas exceções com algum reconhecimento, mas eu acho que ainda são muito poucas em Portugal. Também acho que dentro do reconhecimento que já houve de algumas podia ser visto um trabalho mais continuo, é como se aparecessem e depois facilmente desaparecessem.

Edd Wheeler - Há grupos que participam de coletivos, ONGs que investem na questão social?

Mada Mc - Do pouco trabalho que tenho visto de Hip Hop feminino, o Hip Hop de Batom foi o primeiro grupo que tive conhecimento de ter participado num investimento de uma ONG como coletivo em que a maioria dos participantes era do sexo feminino.

Edd Wheeler - Os temas violência doméstica, violência urbana, tráfico de drogas e abuso sexual também fazem parte do cotidiano português?

Mada Mc - Claro que sim, eu vivo num bairro social, que fica situado numa zona considerada como zona de ricos de Lisboa, que é conhecida como zona dos betinhos e das tias, mas muito contraditório a esse estereótipo associado a esta zona de Lisboa, existem também (embora seja uma minoria) alguns bairros sociais onde a realidade é completamente oposta ao que se ouve dizer na generalidade sobre Cascais. Eu mesma fui vitima de violência doméstica (fui apedrejada violentamente pelo meu ex-namorado, pai do meu filho), perdi um jovem amigo de 18 anos apenas, que foi espancado numa guerra entre dois bairros em que esses dois bairros são situados aqui em Cascais, existe tráfico de droga explícito nas ruas do meu bairro, inclusive foram presos quatro policiais de Cascais recentemente por tráfico, corrupção, entre outros crimes, e não parecendo muito lamentadora nem dramática, há uns dias fui ao tribunal na qualidade de testemunha num processo de abuso sexual da parte de um homem que abusou sexualmente dos sobrinhos e filho, que confessou em tribunal os crimes e que neste momento esta aguardando em liberdade a sentença, uma pessoa com vários antecedentes criminais e que o tribunal já tinha declarado como culpado em outros processos em que já tinha sido condenada a pena de prisão.

Edd Wheeler - Quais são os seus rappers favoritos?Há alguns do Brasil?

Mada Mc - Tenho muitos Rappers favoritos, (risos) mas Portugueses gosto muito de Valete, Dealema, Chullage, Nigga Poison, Beto de Chelas (entre outros) claro que tenho alguns nomes brasileiros Mv Bill, Racionais, Negra Li, Ao Cubo, GOG, Dexter (principalmente o tema “Fénix”).

Edd Wheeler - O cenário do hip hop masculino em Portugal está em parceria com o feminino?

Mada Mc - Não digo uma parceria, mas talvez uma maior aceitação das mulheres no mundo do Hip Hop, a realidade é que cada vez mais se vê parcerias entre homens e mulheres. Eu mesma posso dizer que tenho duas participações de homens nas minhas músicas e que já participei em duas músicas de dois rapazes, por exemplo, o Alison, Pina G, Dukes DDF, é um aspecto muito positivo, mas ainda está um pouco longe de ser uma parceria num todo.

Edd Wheeler - Você é mulher, negra e rapper. Estes três ingredientes lhe impedem de desenvolver seu trabalho e sua vida?

Mada Mc - Não digo que me impeçam, mas sim que apresentam um grande desafio, que todos os dias tenho de enfrentar como mulher, negra e rapper. Mas que aceito e que enfrento como barreiras superáveis, por vezes, são confrontadas com situações e insultos homofóbicos, mas neste ponto tenho a destacar que a leitura de algumas autobiografias tem me servido de inspiração e tenho aprendido muito com elas quando retratam a vida de pessoas que sofreram na pele conseqüências do racismo, discriminação, mas que souberam lidar com elas da melhor maneira possível, sentindo-se realizadas e com papéis importantes falo de Martin L.King, Gandhi, Nelson Mandela, Obama… perante as capacidades que acredito ter, acho suportável e sinto-me muito orgulhosa por ter essas três características.

Edd Wheeler - O rap atualmente está mais superficial?

Mada Mc - Não acho que o Rap esteja muito superficial, acho é que a maioria do Rap que é divulgado nos meios de comunicação mais abrangentes, é que é um Rap com temas na sua maioria muito abstratos, quando na realidade existe um Rap com temas mais interessantes, mais interventivos e com mais poder social do que aquele que tem vindo a ser mais comercializado e que algumas vezes transmitem mensagens muito materialistas.

Edd Wheeler - Qual o recado que você deixa para as mulheres que integram a cultura hip hop pelo mundo todo?

Mada Mc - Digo-lhes que contradigam a tendência que existe em atribuir ao Hip Hop uma imagem essencialmente masculina, que continuem e acreditem sempre nas suas capacidades, que em situação alguma ponham em causa uma suposta inferioridade pelo simples fato de serem mulheres, e por fim quero dizer que elas não estão sozinhas e que todas juntas seremos o lento, mas grande progresso para humanidade contra a discriminação da mulher.

E se você tiver a fim de TC Além-Mar (rss) e escutar o som desta referência feminina na cultura hip hop de Portugal, segue os contatos da minha nova amiga: www.myspace.com/madamctc [email protected] (email para busca no Orkut, facebook, Hi5).



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