Praia de Ramos, 1959. Nascia, com a ajuda de uma parteira, Lindenberg Cícero da Silva, filho de paraibanos, em uma palafita de madeira sobre o mangue. O incêndio no fim de 1958 deixou marcas do fogo nas roupas do bebê e uma nova casa. O pai seresteiro deixava o violão ao lado, cantava na Rádio Nacional, sumia por dias, voltava com comida, irritava a mãe. “Não haverá outro Cícero aqui, não”. E assim proibia o violão, uma coça para quem o tocasse.
A mãe morreu quando ele tinha 12 anos, e o menino foi levado ao catecismo, onde havia um violão. “Será que ela vai achar ruim se eu tocar violão? Vai não, porque quero ajudar as pessoas, levar mensagens positivas”. E passou a tocar violão escondido, na escola, quando aos 16 foi convidado para um concurso, ficou em terceiro lugar. “Ih, se sua mãe estivesse viva não ia gostar, não”. Mas a apresentação, acompanhado de um coral, encheu de esperanças o menino. Em 1981 ganhou o prêmio de melhor intérprete na Escola Bahia – fez a laje de casa. E daí para festas, aniversários, escolas.
Auxiliar de serviços gerais, ajudante de pista do aeroporto internacional, maqueiro do Hospital Miguel Couto, ourives, desempregado. Plim! Por que não colocar um som em uma bicicleta, oferecer este serviço aos comerciantes? “O carro de som só passa nas ruas principais, a bicicleta entra nos becos, fala para as mulheres em suas cozinhas”. E junta sua música à propaganda do comércio, e divulga sua voz ao lado do preço dos ovos no supermercado, e une ao trivial conscientização sobre ecologia e cidadania.
“É uma forma de dar meu grito através da música”. Um grito pela baía de Guanabara, pela Praia de Ramos, pela limpeza da comunidade, pelo voto consciente, pela luta contra a dengue e os ratos. Perdeu o rato de boneco em uma das escolas, de tanto que o bichinho apanhou. O mosquito da dengue já foi chutado, maltratado, mas restaura suas asas de garrafa PET e segue à frente da bicicleta, ajudando Bhega a levar sua mensagem. “Meu sonho é ajudar as pessoas que precisam de atenção, quem não tem o que comer, precisa de um remédio, e quem só precisa de uma música para se alegrar”.



























Parabens ! Muito bom mesmo !