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  Revista
O conflito se expande
por: Redação Viva Favela
22/10/2009

Destroços do helicóptero abatido por traficantes
Destroços do helicóptero abatido por traficantes
 Os Morros São João e Macacos ficam em Vila Isabel, na zona norte, onde na madrugada do último sábado, 17, duas facções rivais entraram em confronto pelo comando dos pontos de droga do Morro dos Macacos, que resultou na queda de um helicóptero da PM e na morte de 33 pessoas (18 seriam traficantes, três são policiais militares e quatro inocentes) em toda a cidade. As imagens, que rodaram o mundo e assustaram a população, atingem diretamente os moradores de diferentes comunidades que ficam na linha de frente de uma eventual retaliação de traficantes rivais e da polícia em diferentes comunidades.

Ontem, 21, várias operações policiais aconteceram pela cidade e na Baixada Fluminense: duas comunidades da Maré (Parque União e Nova Holanda), Vila Cruzeiro, no Conjunto da Penha, de onde teria partido a ordem de invasão, Jacarezinho, Morro dos Prazeres. Segundo a polícia, essas operações são para encontrar o traficante conhecido como FB, Fabiano Atanásio, apontado como um dos responsáveis pela invasão ao Morro dos Macacos.

Segundo a Central do Disque-Denúncia foram registradas 191 denúncias sobre a invasão ao Morro dos Macacos, um aumento de 32% no registro das denúncias. Deste total, 100 faziam referência ao traficante Fabiano Atanázio da Silva, o FB, que é apontado pela polícia como chefe do tráfico na Favela Vila Cruzeiro.

Segundo Hugo Mattos, morador da Rua Torres Homem, que dá acesso ao morro do Morro dos Macacos, o tiroteio foi intenso com muitas armas de grosso calibre: “O tiroteio começou por volta das duas da manhã e só terminou às oito horas, quando a policia chegou. Muita gente teve que dormir fora de casa nesse dia”.

Para ele, existe um medo coletivo de retaliação por parte da facção que controla o Morro dos Macacos: “As pessoas dizem que ninguém deve sair de casa depois das 10 horas, porque algo pode acontecer”. Informações como essa chegam a todo o momento na comunidade e para os moradores do bairro, que não sabem como agir. Na noite de terça-feira, 20, moradores do Morro São João foram para as ruas com medo de uma possível invasão, que foi desmentida pelo comandante-geral da corporação, coronel Mário Sérgio Duarte, mas o pânico já tinha tomado conta da população.

A moradora do Morro dos Macacos, Karen Carolina Nascimento, diz que há dois meses acontecem tiroteios constantes durantes os sábado por volta das 17h entre traficantes do morro e a policia: “Já era praticamente uma rotina, mas no último sábado foi diferente. O confronto aconteceu por causa de uma tentativa de invasão e não foi a primeira vez que os traficantes do Morro São João tentam. O comentário que se escuta no morro é que a facção rival deu uma ordem para tomar o Morro dos Macacos até dezembro e que esses bandidos tiveram ajuda de policiais para tentar invadir”.

Policiamento em entrada do Morro São João
Policiamento em entrada do Morro São João
A jovem também falou do medo de um novo confronto: “O policiamento não está reforçado e os moradores estão muito apreensivos com medo de uma outra invasão. Eu trabalho no pé do Morro São João e vou para a minha casa andando. Ontem só havia um único carro com dois policiais dentro parado em uma esquina. Em cima do morro não existe policiamento nenhum. Uma vez ou outra um carro blindado sobe e faz uma ronda. Estamos com muito medo porque com certeza a facção rival vai tentar tomar novamente".

O medo de traficantes de quadrilhas rivais estarem escondidos no morro também altera o cotidiano dos moradores, segundo Karen: “Uma vizinha minha que vende doces em uma barraca desde sábado não trabalhava e nem saia de casa. Os vizinhos desconfiavam que traficantes da quadrilha rival estariam escondidos ali fazendo ela e a família de refém. Alguns moradores arrombaram a porta da casa para ver o que acontecia, mas felizmente não havia ninguém na casa. Ela estava tão apavorada que não queria mais sair de casa”, relata a jovem.

Repercussão e medo nas comunidades

Segundo o morador da Vila do Pinheiro, do Complexo da Maré, Wagner da Silva de Barros, 29 anos, a repercussão do conflito no Morro dos Macacos ganhou essa dimensão por causa da queda do helicóptero:

“A queda do helicóptero e a morte dos três policiais chocaram parte da população, mas na Maré, durante cinco meses, nós vivemos um confronto entre facções que matou muita gente, inclusive moradores que nada tinham a ver com o tráfico, e não teve nem metade da divulgação que esse tiroteio dos Macacos está tendo”.

Para ele, esse confronto vai acabar refletindo em diversas comunidades: “Esses tiroteios reforçam a ideia de que na favela só existe bandido e violência, mas o que muitas pessoas ignoram é que trabalhadores morrem durante os conflitos e são logo identificados como traficantes pela polícia”.

No caso do Morro dos Macacos, três nomes de inocentes foram incluídos na lista de bandidos mortos. O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame voltou atrás e pediu desculpas às famílias do mecânico Marcelo Costa Gomes, 26 anos, Leonardo Fernandes Paulino, 27, auxiliar administrativo, e Francisco Haílton Vieira Silva, 24, pedreiro, que voltavam de uma festa na hora da invasão. O garçom Francisco Alaílton Vieira da Silva, 22 anos, conseguiu ser salvo por moradores, mas está internado em estado grave no Hospital do Andaraí. A namorada dele está grávida de três meses.

Morador do conjunto de favelas do Alemão, que prefere não se identificar, diz que há um intenso tiroteio desde a manhã de ontem. O foco é a comunidade Vila Cruzeiro, de onde teria partido a ordem de invasão: “Agora só falam no Morro dos Macacos, mas ninguém fala do inferno que os moradores do Juramento estão passando. Há dois meses há troca de tiros todos os dias, depois que facções de quadrilhas rivais invadiram um território dominado por outra”.

Na Cidade de Deus, comunidade que desde fevereiro recebeu a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), o clima entre os moradores é de tensão: “Isso que está acontecendo no Morro dos Macacos é um absurdo, porque quem sofre são os moradores. A gente pensa que a nossa comunidade pode ser a próxima. Eu sinto muito medo”, diz Mônica Cristina Gomes, 42 anos.

“Quando isso acontece, as pessoas podem apenas rezar para que nada aconteça com seus parentes que estão chegando da rua. Os adolescentes nos morros têm poucas alternativas para fugir da violência”, opina Robson Luiz de Mendonça, 38 anos.

O clima de medo afeta diretamente as pessoas que vivem na linha de fogo, e acaba gerando ideias mais radicais entre os próprios moradores de comunidade, como Claudio Aparecido de Freitas, de 54 anos, também da Cidade de Deus: “É um momento muito difícil. A lei no Brasil é muito branda. Temos que colocar o exército nos morros ”, mas esquece que no ano passado, o Exército foi convocado para fazer a proteção de uma obra que acontecia no morro da Providência e depois de sete meses, histórias de abusos de autoridade foram descobertas quando três pessoas foram executadas, por traficantes de um morro rival, trazidos por oficiais e soldados de exército.

Veja mais em:

Cenário de guerra

Abusos na Providência




 
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